O meu professor particular de inglês é drag queen. Isso não é segredo para ninguém: ele tem uma vida aberta e se orgulha disso. Quando o conheci, ele era apenas o Gui Terreri, mas, depois de uns meses, ele tirou a Rita von Hunty de dentro de um armário bem colorido e anunciou isso para os alunos, amigos e também para o mundo. No Facebook, ele tinha dois perfis: um dele garoto e outro como Rita. Pena que rolou uma treta, e o Mark Zuckerberg obrigou todo mundo, para o desespero das drags e dos transgêneros, a usar apenas o que a rede social considera como um “nome real”. Meses depois, pediu desculpas aos usuários, mas a parada já estava feita: vários perfis foram deletados e outros tiveram os nomes alterados.

Enfim, teve um dia em que eu me deparei com este post no meu feed de notícias:

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Eu vi aí uma oportunidade de fazer algo que eu nunca havia feito antes: ser dançarino de uma drag queen por uma noite. Na mesma hora, liguei para o Gui. Ele me recusou, dizendo “vamos combinar que não é muito o seu perfil, né?! Te agradeço super, mas já consegui um dançarino. Beijos”. Percebi que seria mais fácil ser aprovado no vestibular de medicina do que convencer uma drag queen de que eu poderia ser um dançarino do dia para a noite. Com a autoestima mais baixa do que o nível de água da Cantareira, desisti da ideia. Mas só até o Guilherme me ligar de volta no dia seguinte: “Então, o outro dancer também desistiu. Mas eu acho que, com ensaios, no plural, você pode dar conta sim”.

Numa quarta-feira à tarde, lá estava eu de moletom para ensaiar a coreografia do show. Sem a iluminação de festa, a casa noturna parecia uma caverna bacana, já que não tinha janelas e muito menos ventilação. Isso fazia com que o forte cheiro de desinfetante deslizasse intensamente pelas minhas narinas. Naquele momento, pensei que o inferno não deveria cheirar a enxofre, mas,sim, a um mix de eucalipto com florais campestres. No palco da pista, o Gui já estava de salto alto fazendo alguns movimentos e passos.

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Junto com o outro dançarino, eles ensaiavam ao som de um remix de “Slow“, música da Kyile Minogue. O áudio vinha de um celular,e eu ofereci o meu computador pra aumentar o volume.

Basicamente, a coreografia criada pela Rita exigia que eu e o outro dançarino ficássemos nos exercitando (polichinelos, abdominais e flexões) no chão, enquanto ela faria movimentos sensuais em cima do palco. Foram muitas e muitas repetições da mesma coreografia,e, para mim, aquilo estava parecendo uma aula infinita de Mahamudra ou crossfit. Enquanto eu, todo suado e descoordenado, tentava memorizar a dança, o Guilherme e o outro dançarino faziam aquilo tudo parecer fácil e divertido. Obviamente, eu sou o cara da direita:

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Depois do ensaio, ficou combinado que eu e o outro dançarino usaríamos uma regata branca e um short preto na noite do show. Pra não passar vergonha e não parecer um amador nessa área, eu fui diretamente a um sex shop comprar o menor short que encontrei na loja. No dia seguinte, na quinta-feira depois do trabalho, fui fazer o freela de dançarino na parte da noite. Convidei três amigos pra irem comigo e nos encontramos numa esquina da rua Frei Caneca.

Ao entrar, subi com a Rita e o outro dançarino para ensaiarmos pela última vez no piso de cima. Ela, que estava usando um macacão de tigresa, maquiagem, peruca, unhas compridas e com quase dois metros de altura, me falou: “Nossa. Tá um pouco curto esse short, né, Canalinho!?”. Depois disso, realmente fiquei preocupado e comecei a achar que eu havia passado dos limites. Só relaxei quando ela me entregou uma comanda e disse que rolaria um goró de graça para os dançarinos.

Para quem não conhece, o clube noturno A LOCA é um dos inferninhos mais famosos de São Paulo. Famoso, sim, por ser um lugar no qual a diversidade é sempre bem-vinda. Toda vez que vou lá, eu penso: “Eita, nunca tinha visto isso”. Tem um pouco de tudo – vai-se da bagaceira ao excêntrico em segundos. Por todos os lados, podemos ver gays beijando gays, héteros beijando gays (?) e até mesmo héteros beijando héteros. Ou seja, este mundão maravilhoso chamado planeta Terra.

O show acabou atrasando mais de uma hora, e usei esse tempo para beber alguns drinks. No caso, estou chamando catuaba de drink. Fui intercalando com água pra não correr o risco de ficar (muito) bêbado e cair de cima do palco. Ao olhar para a lateral do palco, vi que já estava rolando uma apresentação por lá. Dá uma olhada na loira:

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Cara, tem de ser muito macho pra colocar uma peruca, subir no salto alto e encarar um público que está disposto a te vaiar ou aplaudir. E as drag queens, em sua maioria, fazem isso muito bem, geralmente com um humor ácido e afiado.

Minutos antes de subirmos no palco, reparei que a Rita estava concentrada em duas atividades que se repetiam: esconder a neca ao máximo e tentar deixar os enchimentos dos seios numa posição/proporção natural. E eu só pensava em não esquecer a coreografia.

Quando fomos chamados, o show de quatro minutos passou tão rápido como se fosse um flashback na minha memória. E não era por eu estar bêbado, mas, sim, pela adrenalina do momento. Provavelmente, você já sentiu isso, no mínimo, ao apresentar um trabalho na escola, faculdade ou toda vez que precise se apresentar/falar em público.

Este sou eu, todo orgulhoso por não ter arruinado o show da Rita. O click foi feito segundos antes de eu responder algumas perguntas no microfone:

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– I aín, você faz o quen da vida?
– Eu sou dançarino.
– Hummm. E tem namoradum?
– Não, não tenho, mas quem sabe eu encontro um aq…

E a drag queen, que infelizmente eu não sei o nome, foi embora sem deixar eu terminar de responder. Os meus 15 segundos de fama se transformaram em “Xô, sai pra lá, ninguém quer saber da sua vida”.

Quando desci do palco, fui encontrar os meus amigos na pista, mas eles estavam mais interessados em dançar encoxando as pessoas em volta do que em expressar um feedback sobre a minha performance. Obviamente, me dei conta de que quem brilha nos shows são sempre as drags, nunca os dançarinos. Tanto que encontrei a Rita no fumódromo tirando fotos com várias pessoas que se diziam suas fãs. Um verdadeiro meet and greet, com direito a mão na bunda e sorrisos de miss. Depois da muvuca ao redor dela, fui trocar uma ideia:

– Gui, me fala um pouco sobre a Rita von Hunty. Por que você faz esses shows?
– Eu sou o Guilherme, mas também sou a Rita. É com ela que eu me expresso melhor, me sinto um ser humano mais completo e feliz. Os shows, eu faço pra transmitir a minha mensagem.
– E qual é essa mensagem?
– Toda vez que eu subo no palco ou falo com alguém sobre isso, a minha intenção é combater qualquer tipo de preconceito. As drags, travestis, transgêneros e gays sofrem todo tipo de violência, seja física ou psicológica – a nossa luta é diária. O Brasil é um dos países com maior violência contra essas classes: as pessoas simplesmente não aceitam nada que seja diferente delas mesmas. E me fala: por que eu sou pior ou melhor do que alguém só por usar salto alto, peruca ou maquiagem? O corpo é meu, e somente eu posso decidir o que fazer com ele.

No dia seguinte, além da ressaca, uma coisa martelava dentro da minha cabeça: “Ser dançarino de uma drag queen, com toda certeza, foi um dos melhores freelas da minha vida”.

Matéria publicada na VICE Brasil. Fotos de Anna Mascarenhas. 

4 Responses to Fiz Um Freela Como Dançarino de Uma Drag Queen Por Uma Noite

  1. Ricardo disse:

    Cara, impressionante! Gostei de ler sobre essa sua experiência, dá até vontade de fazer tb! kkkk

  2. Viviane disse:

    Muito bom!! Hahaha
    Estou gostando muito dos teus textos! Parabéns!

  3. Amo a Rita. Agora, tu teve muita sorte do dançarino ter desmarcado. Quando o Guilherme (que adoro demais) ligasse diria: ” Agora não quero mais” hahahahahahah sqn
    Mas e aí, os amigos gostaram da sua performance?

  4. Hugo Raphael disse:

    Conheci seu blog de relance em um compartilhamento no facebook, agora não consigo mais para de ler. Vai escrever e saber prender a gente em seus textos assim na pqp <3

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