Se a avenida Paulista fosse uma pessoa, provavelmente ela seria viciada em café ou ritalina. Ela nunca dorme e sempre parece estar ligada no 220V. Da janela do meu apartamento, já pude ver inúmeras cenas mais interessantes do que as transmitidas na TV ou na tela do computador. Em uma dessas madrugadas em que a insônia veio me visitar, resolvi fazer uma caminhada às 2 da manhã e ver quem cruzaria pelo meu caminho.

O primeiro que encontrei foi o Agenor Dantas, que trabalha como gari há mais de 6 anos. Eu disse que estava fazendo uma matéria sobre os aventureiros da noite e perguntei se podia entrevistá-lo. “Pode sim, mas venha andando comigo, pois ainda tenho muito o que fazer e não posso parar”. 

 


(E o Agenor não parou mesmo, nem para eu fazer o click acima).

Ele me contou que começa a varrer as calçadas do metrô Paraíso e vai até o metrô Consolação. “O meu trabalho é garantir que à partir das 5 da manhã toda a extensão da avenida Paulista esteja limpa. As pessoas nem percebem, mas gostam de encontrar as ruas limpas. Acho que o povo pensa que isso acontece automaticamente, né? Mas tem muita sujeira por aqui, se não fosse eu e os outros garis, a cada manhã vocês veriam o quanto de lixo as pessoas jogam diariamente pelas ruas. Coloca aí na sua matéria que gente educada joga lixo só no lixo”. Fica aqui o recado do Seu Agenor, tá!

 

A madrugada estava quente e os termômetros marcavam 27º C, inclusive, até a foto parece derreter de tanto calor. A minha caminhada continuou e tentei falar com uma mulher que andava distraída. Eu falei “Olá, tudo bem? Será que eu posso…“, mas antes de eu terminar a frase, ela gritou e saiu correndo atravessando a rua. Foi mal, nem consegui fazer um click desta cena 🙁


Alguns passos mais pra frente, cruzei com o Parque Trianon e puxei conversa com um policial que preferiu não ser identificado. “Eu não tenho autorização para conversar com a imprensa. Mas o que você quer saber?“. Ele me contou que esta unidade fica 24h parada na frente no Masp e o museu é o maior motivo disso, pois a preservação das obras de arte e a segurança das mesmas são obrigação do governo. Além disso, a calçada recuada facilita o acesso e não prejudica a passagem dos pedestres.


Assim como você deve imaginar, a calçada do vão do Masp é um dos lugares favoritos dos skatistas notívagos da cidade. Pelo menos, foi isso que o Anderson Freire Brandão me contou às 3h10 da manhã. “Este lugar é mais seguro porque tem a base policial, que fica bem em frente. E aqui eu consigo fazer as minhas manobras e aproveitar que a calçada fica vazia. Andar de skate aqui de dia é complicado, tem o risco de trombar com a multidão.”


O bar acima fica aberto até às 5 da manhã e o movimento costuma ser intenso. Eu perguntei para um dos garçons qual o tipo de público que frequenta aquele bar durante a madrugada. Ele respondeu: “Todo tipo de bêbado, desde os trabalhadores até os vagabundos boêmios, bar é bar, não importa o dia ou horário.”

Aproveitei para comprar uma cerveja e voltei a minha caminhada. Dei alguns goles e um grupo de três pessoas passou por mim rindo e disseram: “Olha lá, este aí é dos nossos, resolveu curtir a noite em grande estilo.”

Eles não quiseram se identificar, mas me autorizaram a tirar a foto e a publicar onde eu quisesse. Eu perguntei se eles gostariam de expressar algum tipo de opinião e o rapaz de azul, do lado esquerdo da foto, disse: “Sim, eu quero registrar que o Brasil inteiro vai sentir muita falta da Carminha, esta novela foi ótima, viva a Avenida Brasil!”.

Eu me despedi e fiquei olhando enquanto eles caminhavam na direção oposta, todos cantando uma música que eu não consegui identificar. Acendi um cigarro e reparei que já havia cruzado com muitas pessoas em situação de rua. Foi aí que decidi tentar conversar com um deles. Abordei alguns, mas todos me ignoraram. Confesso que precisei correr de um deles, que ficou ofendido quando perguntei se ele estava a fim de trocar uma ideia.

Mas eu sou teimoso e resolvi fazer uma última tentativa, que acabou dando certo. Foi num ponto de ônibus que o Regynaldo (ele fez questão de dizer que era com Y) topou conversar comigo.

 

Eu falei que havia reparado que tem muitas pessoas dormindo na avenida Paulista durante a noite. Ele riu e disse:

REGYNALDO: “Meu jovem, você e a sociedade estão doentes, cegos e só enxergam o que querem ver. De dia existe tantos ou mais mendigos por todas as ruas, mas vocês preferem não nos ver, pois estão ocupados vivendo esta vidinha programada de vocês. Casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho. Eu uso crack? Não importa! Vocês devem usar algo bem pior, chama ganância, chama loucura, chama individualidade. Tá vendo, eu sou inteligente, eu sei falar e conversar! Eu estou nas ruas porque eu quero, não acredito e não faço parte da sociedade de vocês.

Ele parou de falar e ficou olhando para um ponto fixo. Eu perguntei se podia fazer uma foto dele. “Só se você me der um cigarro. E um isqueiro, porque o meu acabou.”

Tá ali, o cigarro na mão dele e a foto que eu pedi pra fazer.

Matéria publicada no Yahoo! Brasil.

3 Responses to Pessoas Que Podemos Encontrar na Madrugada da Avenida Paulista

  1. Alice disse:

    Muito incrível esse Regynaldo.

  2. George disse:

    Cara, muito bom este seu blog em, comecei a ler hoje e nossa, que demais, este é meu primeiro comentário aqui, já esta tarde, estou com sono então fica difícil pensar em algo bom e com nexo para escrever.
    Gosto da sua escrita a maneira como passa seu sentimentos e as coisas que vivenciou em seu texto, é incrível, sinto como se tu estivesse aqui, contando exclusivamente para mim, como se te conhecesse, louco não. rs.
    Bom eu vou indo nessa, mas boa sorte para tu cara, muito sucesso e continue com as postagens. 🙂

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