Terça-feira à noite, 20h50, eu estava parado na saída do metrô São Bento com um saco de pão de padaria nas mãos. Perguntei pra um dos seguranças se ele sabia onde ficava a rua Boa Vista, altura do número 51.

– Você vai lá agora? Cuidado, só tem “craqueiro” e nóia por aquelas bandas a esta hora.

Talvez boa parte das pessoas pensem assim, mas não o grupo Solidariedade na Babilônia. A convite de uma amiga, eu fui ver de perto o trabalho desta galera. Não importa se esteja chovendo, seja feriado ou o país esteja em crise com a classe média batendo panelas nas janelas. Todas às segundas, terças e quartas-feiras da semana, um grupo de amigos se reúne às 21h no centro da cidade de São Paulo para distribuir sopa, pães, café e água potável para os moradores de rua.

Cheguei no local e tive a certeza que era ali quando vi mais pessoas com sacos de pães nas mãos. Sorri e recebi de volta um sorriso de cumplicidade de uma mulher de vinte e poucos anos:

– Olá, prazer, sou o Felippe. Tudo bem?
– To bem. E você?
– Também. Escuta, é aqui que o pessoal se encontra pra distribuir sopa?
– Eu acho que sim. É a primeira vez que eu venho. Já são 21h?

Neste momento, um carro encostou próximo de nós e as pessoas de dentro começaram a tirar do seu interior grandes panelas, banquinhos, galões de água e copos de plástico. Imediatamente, como que num passe de mágicas, dezenas de moradores de rua formaram uma fila indiana enquanto todo o aparato era rapidamente montado na calçada. Entre sorrisos, cumprimentos e boas-vindas, as seguintes frases eram ditas meio que fora de ordem:

– Opa, que bom que você veio.
– Olá. É a sua primeira vez aqui?
– Onde eu coloco os pães?
– Temos mais copos? Pode ir enchendo estes aqui com a sopa, por favor. Está quentinha, acabamos de fazer.
– Olha, tente dar apenas um pão por morador de rua. O importante é que todos ganhem, se um deles pegar dois ou três, alguém vai acabar ficando sem.
– Você pode ficar responsável em distribuir a água e o café, por favor? Monte outra fila, senão fica confuso.

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(Foto clicada do celular)

Em pouco tempo ali, percebi que a sopa e o pão eram os coadjuvantes. Sim, os personagens principais daquela noite eram outros: olhar dentro dos olhos e o sorriso. Era isso que fazia a diferença, tanto pra quem oferecia como para quem recebia. Muitas das pessoas naquela fila sentiam fome, mas também sentiam uma necessidade de atenção. Um dos moradores de rua, após me pedir um cigarro, confidenciou:

– Aqui é um dos único lugares em que eu não me sinto invisível. As pessoas me cumprimentam, perguntam o meu nome e me fazem sentir parte da sociedade de novo. A sopa enche a barriga, mas o fato desse pessoal voltar aqui 3 vezes por semana me enche de felicidade.

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(Foto clicada do celular)

O cheiro da sopa me remeteu ao cheiro da sopa da minha avó. Perguntei quem a fazia e me indicaram o Paulo. “Paulo, qual Paulo?” Me apontaram um cara tatuado usando boné, mas me avisaram: “Ele é punk, nem tente pedir uma entrevista“. Fui lá e pedi mesmo assim.

– Opa, tudo bom? Me falaram que você é quem prepara a sopa.
– Eu? Eu não. Quem prepara é todo mundo que doa os alimentos. Eu sou apenas o cara que coloca os ingredientes e carinho na panela. Aliás, o segredo pra ficar boa é esse, o carinho.
– Você topa me dar uma entrevista sobre o trabalho da Solidariedade na Babilônia?
– Ah, não topo não. Me desculpe. A minha vida toda eu fui punk. Nasci assim. Sou contra o sistema. Aliás, a maneira que eu uso pra lutar contra o sistema é essa aqui. O Estado tinha a obrigação de cuidar dessa galera, mas eles não querem ou não conseguem. A minha parte eu tento fazer, mas não quero divulgar. Todo dia eu aprendo muitas coisas aqui, olhando nos olhos, conversando, aprendendo a ser mais humilde… Humanidade. É isso, somos todos um, todos iguais.

Isso foi em dezembro de 2015, pouco antes do Natal. Há algumas semanas entrei em contato com a Dani, uma das responsáveis pelo grupo Solidariedade na Babilônia e ela me disse que, agora, toda segunda tem macarronada e às terças e quartas a sopa continua.

Sobre o Solidariedade na Babilônia: “Sem ter o objetivo de tirar alguém das ruas, doutrinar ou pregar qualquer tipo de religião, não somos uma ONG e não recebemos doação em dinheiro. Nosso objetivo é fazer a ponte entre quem quer doar e quem precisa de doações”. 

Para quem quiser saber mais informações, é só entrar em contato com a Fabiana Uva no celular: (11) 98257-9521. Quer mandar doações de alimentos ou roupas? O endereço é Rua Ernesto Brodella, 103, vila Universitária, São Paulo. CEP: 05359-190.

One Response to Solidariedade na Babilônia – Quando Amigos Se Reúnem Pra Fazer o Bem

  1. Vitor Morais disse:

    Excelente matéria. Essa desigualdade é o que nos degreda.
    Coerente o Paulo ‘Pank’… é o que falta a muita gente!

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